quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O dia em que a Júlia nasceu

(Entrar no corredor da maternidade e não lembrar de quando o Gabriel nasceu é impossível. Foi o dia mais importante pra mim. Lembro como se fosse hoje, mesmo há quase cinco anos.)

A consulta no médico era às quatro da tarde, já marcada na semana anterior. Corri do trabalho pra casa, buscar a patroa, que já estava pronta há umas 48 horas. Fazia calor naquela sexta-feira. Cheguei com muita sede, abri uma cerveja e tomei como quem bebe um copo d’água no deserto. Minha vontade era de embriagar-me naquela mesma hora, só para conter a ansiedade, mas tinha de estar sóbrio.

Esperamos um tempão, no consultório, até chegar a nossa vez. E foi tudo como previsto, a hora chegara, a Júlia estava pronta e a Rosana estava bem. O doutor disse que poderíamos ir direto para o hospital: seríamos pais, novamente, naquela noite. Nessa hora, mesmo com toda aquela expectativa e a experiência já vivida, bate uma sensação de euforia, tensão e felicidade.

Entramos pelo mesmo corredor. Não há como não passar aquele mesmo filme em sua mente. Mas dessa vez era diferente, além de um pouco mais velhos (mas não tão mais experientes assim), seríamos pais de uma menininha. Sim, uma menininha. Para um pai, isso faz toda a diferença. No quarto, nos acomodamos e esperamos, tranquilamente, a chamada para a sala de cirurgia. Minha sogra querida estava conosco e, para distrair a emoção, lembramos da última vez em estivemos ali e pelos bons momentos em que passamos até voltarmos àquela mesma situação.

Não demorou muito e fomos chamados. Assim como na primeira vez, estava pronto para assistir o parto. E fui. Antes, passamos por uma espécie de vestiário, o médico e eu, para colocarmos as vestimentas necessárias para adentrar na sala de cirurgia. No caminho, uma das enfermeiras avisou ao doutor que não tinha conseguido o contato com o pediatra que solicitamos - o mesmo de nosso filho. O doutor perguntou se a enfermeira tinha ligado na casa do médico, e ela disse que sim, mas ninguém atendia. Sem se importar com minha presença e muito menos com minha reação, soltou um bem soletrado puta-que-o-pariu ao saber que o pediatra de plantão não era de seu agrado. Tentei ficar tranquilo, afinal, confiava naquele homem de jaleco, apesar dos palavrões. E ao perceber minha preocupação diante da sua tentou me acalmar dizendo que estava tudo bem.
A tensão em relação ao médico pediatra durou pouco, já que alguns minutos antes de começar, a mesma enfermeira disse que tinha conseguido entrar em contato com uma pediatra amiga, mais chegada ao doutor, e que já estaria a caminho. Senti um certo alívio da parte da equipe médica (curioso, isso; relações de parcerias profissionais há em todos os meios).

Eram oito e pouco da noite quando me chamaram para entrar na sala. A mesma sala de antes. Olhei as horas. Gravei em mente o primeiro corte do bisturi; tentei ficar calmo, me concentrar e, apesar do barulho dos instrumentos cirúrgicos e da conversa no ambiente, ouvia os ponteiros do relógio ao lado de fora, cuja visão se dava através de um vidro na parede onde fiquei encostado.

O primeiro choro é inesquecível. O comentário do doutor também: "nossa, grandona ela, hein?" "É, não puxou o pai", disse outra enfermeira sem-graça, com um ligeiro ar de deboche perante minha estatura não muito avantajada. Logo, a médica pediatra já pegou a Júlia no colo e a levou para uma sala ao lado. Pela primeira vez muito próximo a minha filha, chorei. Chorei de emoção, de alegria. Perguntei à pediatra se estava tudo bem, ela disse que sim, "a menina é perfeita". Era tudo o que eu queria ouvir.

A troca de ‘salas’continuou e, após levarem rapidamente a menina para a mãe ‘dar a benção’, fomos para outro lugar onde se tiram as medidas, o peso, fazem o teste auditivo e o pai pega o bebê no colo antes de entrar na fila da família babona que espera ao lado de fora.

Ao voltar pelo corredor da maternidade, todos que já esperavam debruçados na parede transparente da salinha dos recém-nascidos vieram me abraçar e saber como era a pequenina. Disse que era moreninha, diferente do irmão, loirinho, e que era muita linda e parecida com ele. A curiosidade da família só aumentou, mas durou pouco, pois logo a nova integrante estaria ali, perante todos.Os flashs começaram logo que a enfermeira posicionou, estrategicamente, a garotinha para a primeira e talvez mais importante sessão de fotos de sua vida. A babação era grande. O momento é único. A alegria, incomparável.
Não vou dizer que passa um filme de toda a sua vida naquele momento. Não dá tempo. É tudo rápido demais. Da euforia pela nova vida entre nós, vem uma calma quase que budista quando todos se vão e ficamos a sós embaçando o vidro do berçário, venerando aquele presente de Deus e, ao mesmo tempo, carregando toneladas de responsabilidades futuras em mente.

Dormir em hospital nunca é confortável, mesmo quando a causa é nobre. Nosso ‘plano de parto’ não permitia acompanhantes para passar a noite, mas como a maternidade estava tranquila naquela sexta-feira fiquei por ali mesmo. Para minha sorte, havia um pequeno sofá no quarto e, como não sou muito alto, ainda pude esticar as pernas (nós, os baixinhos, somos ecologicamente viáveis para o planeta, já que consumimos menos e ocupamos pouco espaço). Peguei no sono logo, antes mesmo de acabar o ‘Globo Repórter’ - apesar de simples, havia uma TV 14 polegadas. A Rosana só relaxou na hora em que levaram a Júlia para o quarto (devido ao excesso de sono, não lembro a hora, apesar de ter olhado no relógio). A menina estaria pronta para a primeira mamada, e a mãe, apesar da dor, respirava aliviada por ter, pela primeira vez, a filha em seus braços.


Logo pela manhã, e após uma grande sessão de olhares apaixonados e a contemplação por minha garotinha, tive de partir para o trabalho. Despedi-me de minhas meninas e saí. Saí carregando as noites mal dormidas que estariam por vir, as preocupações naturais que só os filhos nos proporcionam e, principalmente, a responsabilidade de zelar por um novo ser nesse mundo um tanto confuso em que vivemos. Mas com um sorriso inevitável e muito mais feliz de quando entrara.

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