(Entrar no corredor da maternidade e
não lembrar de quando o Gabriel nasceu é impossível. Foi o dia mais importante
pra mim. Lembro como se fosse hoje, mesmo há quase cinco anos.)
A consulta
no médico era às quatro da tarde, já marcada na semana anterior. Corri do
trabalho pra casa, buscar a patroa, que já estava pronta há umas 48 horas.
Fazia calor naquela sexta-feira. Cheguei com muita sede, abri uma cerveja e
tomei como quem bebe um copo d’água no deserto. Minha vontade era de embriagar-me
naquela mesma hora, só para conter a ansiedade, mas tinha de estar sóbrio.
Esperamos um
tempão, no consultório, até chegar a nossa vez. E foi tudo como previsto, a
hora chegara, a Júlia estava pronta e a Rosana estava bem. O doutor disse que
poderíamos ir direto para o hospital: seríamos pais, novamente, naquela noite. Nessa
hora, mesmo com toda aquela expectativa e a experiência já vivida, bate uma
sensação de euforia, tensão e felicidade.
Entramos
pelo mesmo corredor. Não há como não passar aquele mesmo filme em sua mente.
Mas dessa vez era diferente, além de um pouco mais velhos (mas não tão mais
experientes assim), seríamos pais de uma menininha. Sim, uma menininha. Para um
pai, isso faz toda a diferença. No quarto,
nos acomodamos e esperamos, tranquilamente, a chamada para a sala de cirurgia.
Minha sogra querida estava conosco e, para distrair a emoção, lembramos da
última vez em estivemos ali e pelos bons momentos em que passamos até voltarmos àquela
mesma situação.
Não demorou
muito e fomos chamados. Assim como na primeira vez, estava pronto para assistir
o parto. E fui. Antes, passamos por uma espécie de vestiário, o médico e eu,
para colocarmos as vestimentas necessárias para adentrar na sala de
cirurgia. No caminho, uma das enfermeiras avisou ao doutor que não tinha
conseguido o contato com o pediatra que solicitamos - o mesmo de nosso filho. O
doutor perguntou se a enfermeira tinha ligado na casa do médico, e ela
disse que sim, mas ninguém atendia. Sem se importar com minha
presença e muito menos com minha reação, soltou um bem soletrado puta-que-o-pariu
ao saber que o pediatra de plantão não era de seu agrado. Tentei ficar
tranquilo, afinal, confiava naquele homem de jaleco, apesar dos palavrões. E ao
perceber minha preocupação diante da sua tentou me acalmar dizendo que estava
tudo bem.
A tensão em
relação ao médico pediatra durou pouco, já que alguns minutos antes de começar,
a mesma enfermeira disse que tinha conseguido entrar em contato com uma
pediatra amiga, mais chegada ao doutor, e que já estaria a caminho. Senti um
certo alívio da parte da equipe médica (curioso, isso; relações de parcerias
profissionais há em todos os meios).
Eram oito e
pouco da noite quando me chamaram para entrar na sala. A mesma sala de antes.
Olhei as horas. Gravei em mente o primeiro corte do bisturi; tentei ficar
calmo, me concentrar e, apesar do barulho dos instrumentos cirúrgicos e da
conversa no ambiente, ouvia os ponteiros do relógio ao lado de fora, cuja visão
se dava através de um vidro na parede onde fiquei encostado.
O primeiro
choro é inesquecível. O comentário do doutor também: "nossa, grandona ela,
hein?" "É, não puxou o pai", disse outra enfermeira sem-graça, com um ligeiro ar
de deboche perante minha estatura não muito avantajada. Logo, a médica pediatra
já pegou a Júlia no colo e a levou para uma sala ao lado. Pela primeira vez
muito próximo a minha filha, chorei. Chorei de emoção, de alegria. Perguntei à
pediatra se estava tudo bem, ela disse que sim, "a menina é perfeita". Era tudo
o que eu queria ouvir.
A troca de
‘salas’continuou e, após levarem rapidamente a menina para a mãe ‘dar a
benção’, fomos para outro lugar onde se tiram as medidas, o peso, fazem o teste
auditivo e o pai pega o bebê no colo antes de entrar na fila da família babona
que espera ao lado de fora.
Ao voltar
pelo corredor da maternidade, todos que já esperavam debruçados na parede
transparente da salinha dos recém-nascidos vieram me abraçar e saber como era a
pequenina. Disse que era moreninha, diferente do irmão, loirinho, e que era
muita linda e parecida com ele. A curiosidade da família só aumentou, mas durou
pouco, pois logo a nova integrante estaria ali, perante todos.Os flashs
começaram logo que a enfermeira posicionou, estrategicamente, a garotinha para
a primeira e talvez mais importante sessão de fotos de sua vida. A babação era
grande. O momento é único. A alegria, incomparável.
Não vou
dizer que passa um filme de toda a sua vida naquele momento. Não dá tempo. É
tudo rápido demais. Da euforia pela nova vida entre nós, vem uma calma quase
que budista quando todos se vão e ficamos a sós embaçando o vidro do berçário,
venerando aquele presente de Deus e, ao mesmo tempo, carregando toneladas de
responsabilidades futuras em mente.
Dormir em
hospital nunca é confortável, mesmo quando a causa é nobre. Nosso ‘plano de
parto’ não permitia acompanhantes para passar a noite, mas como a maternidade
estava tranquila naquela sexta-feira fiquei por ali mesmo. Para minha sorte,
havia um pequeno sofá no quarto e, como não sou muito alto, ainda pude esticar
as pernas (nós, os baixinhos, somos ecologicamente viáveis para o planeta, já
que consumimos menos e ocupamos pouco espaço). Peguei no sono logo, antes
mesmo de acabar o ‘Globo Repórter’ - apesar de simples, havia uma TV 14
polegadas. A Rosana só
relaxou na hora em que levaram a Júlia para o quarto (devido ao excesso de
sono, não lembro a hora, apesar de ter olhado no relógio). A menina estaria
pronta para a primeira mamada, e a mãe, apesar da dor, respirava aliviada por
ter, pela primeira vez, a filha em seus braços.
Logo pela manhã, e após uma
grande sessão de olhares apaixonados e a contemplação por minha
garotinha, tive de partir para o trabalho. Despedi-me
de minhas meninas e saí. Saí carregando as noites mal dormidas que estariam por
vir, as preocupações naturais que só os filhos nos proporcionam e,
principalmente, a responsabilidade de zelar por um novo ser nesse mundo um tanto confuso em
que vivemos. Mas com um sorriso inevitável e muito mais feliz de quando
entrara.