quinta-feira, 16 de julho de 2015

Um técnico por rodada

*Coluna publicada no Jornal Sudoeste Paulista, em 17/07/2015

O primeiro turno do campeonato brasileiro 2015 vai chegando em sua reta final. O que pode não dizer muita coisa em termos de precisas projeções futuras, já que temos o segundo turno inteiro pela frente. Mas com treze rodadas disputadas (faltam ainda seis jogos para encerrar a primeira fase) é possível identificar aqueles times que brigarão pelo caneco e aqueles lutarão para não serem rebaixados.

O Atlético Mineiro, líder do certame, é quem joga o futebol mais agradável de se ver no país. Alia o bom conjunto com as qualidades individuais de seus ótimos jogadores, como o goleiro Vítor, volante Rafael Carioca e o atacante Lucas Pratto. Vencer o Galo quando mandante é tarefa quase impossível. O time é treinado pelo excelente técnico Levir Culpi, uma figura peculiar. Conhecedor da bola e sem papas na língua, Levir é fã do futebol ofensivo e tem conseguido imprimir suas ideias através de seus comandados. O bom momento vivido pelo seu time é fruto de um trabalho de mais de 15 meses. Sim, um ano e um trimestre à frente da equipe. O que, aqui no Brasil, não é para qualquer um.

Para se ter uma ideia, além do Galo, o único time brasileiro que possui um treinador com mais de um ano à frente de sua equipe é o Sport. Seu técnico, o promissor Eduardo Batista, está desde o começo de 2014 comandando os Leões da Ilha. Consequentemente, o Sport faz uma belíssima campanha nesse Brasileirão, com apenas uma derrota em 13 jogos disputados.

A rotatividade de professores da bola é algo tão comum no Brasil que, além dos dois já citados aqui, apenas mais cinco técnicos começaram o campeonato no comando de seus times. São eles: Guto Ferreira, na Ponte Preta; Diego Aguirre, no Internacional; Argel Fucks, no Figueirense; Gilson Kleina, no Avaí e Milton Mendes, no Atlético Paranaense. Ou seja: dos vinte clubes da série A, treze substituiram seus treinadores no decorrer do campeonato. Isso com apenas dois meses de bola rolando, em treze rodadas no Brasileirão.


Não precisa ser nenhum gênio da matemática para identificar que, na média, a cada rodada um time troca seu treinador. O que não é, convenhamos, nenhuma novidade para o torcedor. Faz parte da nossa cultura futebolística. Quando o time vai mal, tem uma sequência de resultados ruins ou não alcança os objetivos traçados, mesmo que a curto prazo, sempre sobra para o treinador. É mais fácil para o dirigente demitir alguém, e, sendo assim, é mais prático, também, demitir um só homem do que o time inteiro. Jamais os dirigentes assumem a bronca pelas contratações que não vingam, o ambiente tumultuado, quando não a crise financeira que prejudica vários clubes – devido suas péssimas administrações - fazendo com que o atraso nos salários dos jogadores seja algo recorrente. Mas quando a coisa vai mal, alguém paga a conta. Quase sempre é o treinador, nunca o presidente. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

O triunfo chileno não foi por acaso

As expectativas chilenas eram as melhores possíveis antes do torneio sul-americano começar. A melhor geração de La Roja, treinada pelo excelente Jorge Sampaoli, vinha de boa campanha na Copa do Mundo do ano passado e de bons resultados em amistosos subsequentes.

Mas não foi nada fácil a construção do time que levaria, pela primeira vez em sua história, o título da Copa América. E derrotando, nos pênaltis, nada menos que a seleção mais talentosa do continente na atualidade: a Argentina, de Lionel Messi.

O Chile revelou ótimos atacantes na década de 1990. Em 1998, no Mundial disputado na França, contava com Marcelo Sallas e Ivan Zamorano no comando do ataque. Caiu nas oitavas de final diante do Brasil. Voltaria a disputar uma Copa do Mundo somente doze anos depois. Nesse hiato, tiveram mais decepções que alegrias, e ao perceber que poderiam ficar de fora de mais uma Copa foram atrás de Marcelo Bielsa, que vivia uma espécie de retiro sabático em sua fazenda, na Argentina. El Loco, como é conhecido, recolocou o Chile em um Mundial. Mas o mais importante: revolucionou o jeito de jogar da equipe. Em 2010, na África do Sul, La Roja caiu novamente nas oitavas de final contra o Brasil.

Bielsa não renovou seu contrato após aquela eliminação. Claudio Borghi, outro treinador argentino, foi chamado para dar continuidade no trabalho de El Loco. Porém, não foi tão bem sucedido como seu antecessor. Na Copa América de 2011, o Chile perdeu para a Venezuela nas quartas de final. Após o precoce tropeço no torneio Sul-americano e uma campanha com mais derrotas do que vitórias nas eliminatórias para o Mundial de 2014, a Federação chilena optou pela troca do comando técnico. Borghi foi substituído por seu compatriota Jorge Sampaoli - mais um argentino -, que vinha de brilhante campanha com a Universidad de Chile, campeão da Copa Sul-americana de 2011.

Discípulo de Loco Bielsa, Sampaoli assumiu a seleção chilena no returno das eliminatórias. Terminaria aquela campanha na terceira colocação, com 28 pontos e o segundo melhor ataque, com 29 gols. E com o passaporte carimbado para o Brasil.

O sorteio dos grupos não foi muito generoso. Espanha e Holanda, então atuais campeã e vice mundiais, na mesma chave. Estrearam com a obrigação da vitória contra a Austrália e não decepcionaram. O teste de fogo estaria por vir. Os espanhóis, que perderam o primeiro jogo contra os Laranjas, tinham a obrigação da vitória. Mas o Chile mostrou que o futuro daquele time era mesmo promissor. Vitória por 2 a 0 sobre os campeões mundiais e europeus em pleno Maracanã. E mais: eliminando-os precocemente daquela Copa. Fecharam a fase de grupos com uma derrota para a Holanda, que viria a ser semifinalista, o que fez com que o caminho chileno cruzasse com o do Brasil. Novamente nas oitavas de final. Jogo difícil, truncado, nada parecido com as tranquilas vitórias brasileiras em 1998 e 2010. Nos pênaltis, a eliminação diante dos donos da casa e a sensação de que poderiam ir mais longe. 



O Chile se preparou muito para a Copa América em casa. Chegou calejado, com o currículo cheio de grandes confrontos e experiência de sobra. Mostrou o melhor futebol, o jogo coletivo mais bem trabalhado e conquistou com méritos o inédito troféu. Um título que honra a história da seleção chilena, além de significar muito para o país. E que, sobretudo, acaba de vez com aquela pecha de jogamos como nunca, perdemos como sempre.

Viva Chile!