Sou o segundo da esquerda pra direita, agachado. Inacreditavelmente, comecei o jogo na reserva naquele dia.
Meu pai sempre disse que eu jogava muito quando criança, que tinha habilidade com a bola nos pés. Recebia os elogios imaginando-me uma espécie de mini-craque, deitando e rolando pra cima das pequenas defesas adversárias. De fato, jogava bem. Era uma ligeira promessa, sempre entre os primeiros a serem escolhidos quando separavam-se os times. Fui eleito, inclusive, o melhor jogador do não menos importante torneio de futebol entre todas as quintas séries de minha escola – colégio estadual tem até dez salas do mesmo ano, isso só no período da tarde, o que comprova minha tese de que não era um campeonato para se desprezar. Torneio do qual tenho guardada até hoje a medalha de ‘melhor jogador 1997′, um tanto embolorada e com seus escritos quase apagados pelo tempo.
Tempo que, ao passar, mudou meu jeito de jogar. Quando garoto, era como um típico ponta-de-lança, gostava de receber e partir para o gol, costurando os marcadores. Porém, a adolescência me fez um tanto preguiçoso e fui perdendo a impetuosidade de menino. Acabei me tornando um meia comum, sem o diferencial de antes. É fato que ganhei alguns predicados, como a visão apurada dos meia-armadores, hoje tão escassos.
Passaram-se bons anos e, de meia, recuei pra segundo-volante, aqueles mais de saída, bom passe, mas sem a pegada de marcador. Alguns quilos mais velho já vivia de poucos lampejos e outros brilharecos, mantendo-me jogando razoavelmente bem devido mais à técnica do que à velocidade e correria de antes.
Na verdade, eu não queria manter esse nível, mas o nível do passado. Preferia jogar mais adiantado, próximo ao gol adversário, recebendo passes pra resolver, marcar o gol. (No futebol e em outras áreas nem sempre podemos escolher essas coisas; quando aceitamos o lugar correspondente fica mais fácil dar certo.)
Nos últimos meses em que joguei, começava recebendo e tocando de lado, deixando a coisa se ajeitar. Nunca acelerando no início. Segurando os passos e evitando chutes fortes antes de já adaptado ao jogo. (As pequenas lesões, principalmente as musculares, te fazem conhecer melhor seu próprio corpo, saber seus limites).
Foi quando minha validade atlética expirou. Explico. Em 2012 tive vários problemas musculares, embora nada grave. Todavia, qualquer contratura lhe tira de um jogo. E pra quem jogo é ritual, amigo, não é fácil ficar de fora. Mesmo que não valha nada. (Jogar futebol é uma das melhores invenções do homem. É um momento que desliga você do mundo e de tudo que lhe acontece, uma válvula de escape e tanto.)
No fim daquele ano tirei uma semana de férias, daquelas revigorantes. Voltei sentindo-me abençoado. Praia tem isso, você sempre volta melhor do que quando vai. Enfim, em 2013 joguei todas as partidas possíveis, nenhuma lesão sequer. Estava abençoado pelos mares do sul. Mas no fim do ano não repeti a comprovada e eficaz recuperação.
No início de 2014 comecei a sentir dores no joelho esquerdo. No começo, elas só apareciam após as partidas, mas dois meses depois o coitado parecia um melão. Tive que procurar um médico. O diagnóstico foi imediato: tendinite patelar. Gelo, muito gelo, anti-inflamatórios e fisioterapia. A expectativa era de voltar a jogar em até dois meses. Um tanto otimista, eu diria. Hoje faz sete meses que estou longe dos gramados. A notícia boa é que não sinto mais dores, a não tão boa é que ainda tenho, no mínimo, mais vinte sessões de exercícios a cumprir.
A princípio, fiquei um tanto revoltado, nunca havia sofrido uma lesão que me afastasse tanto tempo assim. Depois, com o tempo, me acostumei a ela. Faz parte de minha rotina fazer os exercícios sagrados de cada dia. E foi participando das sessões de fisioterapia que eu passei a enxergar coisas que não percebia.
Logo na primeira sessão, há três meses, expliquei à minha fisioterapeuta os meus dilemas joelheiros, detalhei os dias em que procurei os médicos, os exames solicitados, as primeiras sessões de recuperação e minha primeira e única tentativa frustrada de voltar a correr. Disse a ela que seria o cara mais feliz do mundo se voltasse a jogar ainda este ano. Senti um olhar de pena antes de ouvir ‘oh, que judiação!’, com um certo desdém de quem está acostumada a lidar com problemas muito mais sérios.
Problemas, esses, que pude presenciar durante as minhas sessões. No primeiro dia mesmo avistei um paciente no corredor chegando de muletas. Apenas uma perna, a outra se foi em um acidente. Na segunda semana vi um garotinho de pouco mais de 10 anos reclamando do elevador que estava demorando muito e ele só poderia descer por ali, já que depende de uma cadeira de rodas para se locomover. Vi, também, crianças pequenas submetidas à sessões diárias para correções ortopédicas, algumas com patologias complicadíssimas. Senhoras com problemas nas costas, nos braços, nos pés… senhores de oitenta anos ou mais frequentando aquele lugar rotineiramente na esperança de parar de sentir dores. E eu preocupado em voltar a jogar bola.
Uma certa insignificância toma conta de mim enquanto escrevo essas linhas. Lembro com tristeza de cada vez em que me queixei do meu joelho para quem quer que fosse. Das vezes em que fiz um papel ridículo de coitadinho. Como, inevitavelmente, ainda faço quando penso que os meus amigos estão jogando, e eu não.
Hoje sei (ou acho que sei) os motivos por estar afastado tanto tempo assim. Suspeito que a lesão tenha a ver com outras questões pessoais que tenho de resolver e que, talvez, esteja resolvendo.
Sinto falta, além do jogo em si, das resenhas pós-partidas, regadas à cerveja e os mais gordurosos petiscos. Do papo furado entre amigos, do descompromisso que nos unia – e ainda os une. Sinto falta do ambiente saudável do campinho (descartando a propensão a lesões, o álcool e o colesterol adquirido, claro). Sei que voltarei a jogar, a estar junto de meus amigos boleiros, mesmo não sabendo quando isso irá acontecer.
Sinto também que essa tendinite apareceu quando tinha de aparecer, que precisava passar por tudo isso que tenho passado e que tinha de ver todas as situações que descrevi em minhas sessões de fisioterapia. Talvez ainda me revolte, um dia ou outro, com a demora em minha recuperação. Mas tenho a consciência de que sou um privilegiado por apenas ter a esperança de voltar a fazer uma das coisas que mais gosto: jogar futebol.


