(Chorão 1970 - 2013)
Não me lembro exatamente quando foi a primeira vez em que
ouvi Charlie Brown Jr. Provavelmente, deve ter sido alguma música do primeiro
disco, o irreverente ‘Transpiração contínua prolongada’. Não entendia muito bem
o conteúdo das letras, achava estranho a mistura do ska com aquele rock-falado-bem-escrachado,
mas a simpatia cresceu com a chegada do segundo disco, ‘Preço curto, prazo
longo’. ‘Zoio de lula’ logo virou hit e ‘Te levar’ apareceu como música tema de
‘Malhação’, a novela da molecada.
Naquela época, a MTV era um grande sucesso de audiência e
a banda do Chorão estava sempre no topo das paradas. Sempre com clipes
diferentes, às vezes aparecendo em alguns programas da emissora, como nos inesquecíveis
‘Luau MTV’, muito bem apresentado por Sabrina Parlatore, diga-se. Era o começo
dos anos 2000 e logo, bandas que estavam no auge, como Raimundos e Planet Hemp
mudaram seus rumos. Já os caras de Santos, não. Em 2001, lançariam o excelente
disco ‘Nadando com os tubarões’ e, definitivamente, consolidariam o nome da
banda como uma das maiores de sua época.
Época especial na vida de um moleque de quinze, dezesseis
anos, em que via nascer uma grande paixão em sua vida: a música, o rock, a
liberdade de expressão através de um microfone, uma guitarra, um baixo e uma
bateria (montar uma banda e fazer meia dúzia de shows foi uma das experiências
mais emocionantes que tive). E o Charlie Brown Jr. fez parte de tudo isso. Suas
músicas sempre foram inspirações para qualquer garoto dessa época. Suas letras,
por vezes cafajestes, por vezes protestantes, e por muitas e muitas vezes falando
de amor e de sentimento, expressaram da melhor forma um grito preso na garganta
de uma juventude inteira (exagerei um pouco aqui, eu sei. Tem gente que prefere
o Marcelo Camelo).
Logo, os caras de Santos lançariam três grandes discos em
sequência: o ‘100% Charlie Brown Jr’, ‘Bocas Ordinárias’ – esse, um dos
melhores discos de rock nacional da década passada, e o ‘Acústico MTV’, gravado
ao vivo e com participações especiais de Marcelo Nova, Negra Lee, RZO e Marcelo
D2 (na trilha sonora da minha adolescência, todos esses discos fazem parte).
Também tive a oportunidade de ir em dois shows dos caras.
O primeiro foi em 2003, em Bauru, logo que eles tinham lançado o ‘Bocas’ – show
inesquecível. O segundo foi diferente. A banda já tinha se separado e, dos
integrantes ‘originais’, apenas o Chorão estava no palco. Mas foi legal,
também, pelo show fazer parte da gravação do programa ‘Família MTV’, em 2005,
em um ginásio de esportes em Botucatu. Na época, o disco ‘Tâmo aí na
atividade’, que ganhou vários prêmios, inclusive um de melhor disco de rock da
América Latina, marcou um divisor de águas na trajetória da banda. O apogeu
ficara para trás.
Meu interesse pela banda foi diminuindo a partir do de
então. Já não ouvia com a mesma frequência de antes, apesar de achar bom o
disco ‘Imunidade Musical’, gravado com a então nova formação (‘Senhor do tempo’
é uma das minhas preferidas). A banda ainda gravaria mais dois discos de
músicas inéditas com a nova formação: ‘Ritmo, Ritual e Responsa’ e ‘Camisa 10
joga bola até na chuva’, discos nos quais, confesso, não prestei a devida
atenção, mas conheço e gosto de algumas músicas. Eles, então, estavam para
lançar o disco gravado ao vivo em Curitiba ‘Música Popular Caiçara’, à partir
de março/abril de 2013, quando aconteceu a morte do Chorão.
Morte que comoveu muita gente, não apenas por ser um ídolo.
Eu, particularmente, fiquei triste demais. Quase não acreditei quando vi a
notícia correndo; a comoção era geral. ‘Meu Deus, o Chorão. Que Merda!’, pensei.
Pensamos. Um cara que tinha o dom da palavra, de transmitir suas ideias para
tanta gente, que escreveu tantas letras bonitas, que fazia tanta gente cantar
palavras de amor, partir assim, da maneira como partiu. Do jeito que ele temia,
sozinho. Sozinho.
Sensacionalismo barato é o que acompanha esse tipo de
acontecimento. Principalmente na internet. Páginas virtuais mostravam a imagem
o corpo, ali, da maneira como foi encontrado, horas depois de declarada a
morte. Mas não quero me desvirtuar. Ou me alongar.
Haviam algumas atitudes bem particulares. Chorão não era
um cara fácil, apesar de muita gente, principalmente seus parceiros musicais,
dizerem que ele tinha um grande coração. Lembremos da vez em ele deu uns socos
no Marcelo Camelo, no aeroporto. Apesar de o Camelo ser chato pra cacete e
também ter falado umas bobagens sobre o Chorão, isso não justifica, claro.
Assim como o Chorão, Los Hermanos, Camelos e tals são ídolos de muita gente.
Mas tem muita gente que, por gostar dos Barbas e apreciar o som deles, condenam
o CBJR, ou desprezam a banda. Uma coisa é você não gostar, outra é você
condenar. (Só digo isso porque são dois caras da mesma geração, que tiveram
suas diferenças e tem músicas distintas. Se, por exemplo, entre as duas bandas
tivesse que indicar uma para meu filho ouvir, indicaria Charlie Brown. Mas nem
por isso vou dizer que Los Hermanos é ruim. Não é. Só é diferente).
Chorão também já teve outros entreveros. O mais recente
foi o esporro que ele deu em Champignon, em um show em Apucarana, no Paraná. Falou,
por vários minutos, dispensáveis impropérios, acusando o baixista de só estar
ali por dinheiro. No dia seguinte, os dois gravaram um vídeo e divulgaram na
internet que estava tudo bem entre eles e que tudo já estava resolvido. A verdade é que a coisa já estava feia. Chorão não estava
legal. Tinha terminado seu casamento de quinze anos, sofria de depressão.
Reclamava de solidão.
A notícia ainda é recente. Mas pelo que se viu, com a
toda a repercursão, era que ele não estava bem. Não havia encontrado a paz que
sempre procurou. Não conseguiu 'se traduzir' como traduzia seus sentimentos e
suas angustias em forma de canção. Não foi o terapeuta de si mesmo. Lembro
daquela música: ‘Molduras boas não salvam quadros ruins, eu procurei a vida
inteira sem saber bem pelo o quê’; Lembro, também, daquela em que ele cantava
para seu falecido pai: ‘Nos seus braços você se foi, nos seus braços eu quero
acordar’. Espero, de coração, que ele tenha acordado aonde desejara, e que
tenha visto de perto aquilo o que sempre ecoava: o ‘azul da parede da casa de
Deus’.

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